Moradores denunciam que criminosos cobram mensalidades mais caras, impedem a atuação de operadoras regularizadas e obrigam a contratação de empresas ligadas ao tráfico.

Tráfico impõe provedores clandestinos e deixa moradores sem internet em comunidades do RJ Moradores de diferentes bairros do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana denunciam que o tráfico de drogas assumiu o controle da oferta de internet em áreas dominadas por facções criminosas. De acordo com as investigações da Polícia Federal (PF) que culminaram na Operação Backbone, traficantes armados cortam cabos e incendeiam caixas de distribuição de operadoras regulares para impedir o funcionamento dos serviços e forçar moradores e comerciantes a contratar provedores autorizados pela facção. Segundo relatos obtidos pelo RJ1, os criminosos impedem a atuação de operadoras regularizadas, impõem provedores ligados ao grupo e cobram valores considerados abusivos pelos clientes. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 RJ no WhatsApp As denúncias apontam que milhares de pessoas têm enfrentado interrupções no serviço e dificuldades para contratar outras empresas. Com medo de represálias, os moradores preferem não se identificar, mas relatam que são obrigados a aderir aos provedores autorizados pelos criminosos. No Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio, um comerciante afirma que grandes operadoras foram expulsas da região. “Antes a gente tinha a Claro, tinha várias outras operadoras que prestam serviço de internet e telefonia regularizadas. Essas operadoras foram boicotadas pelo tráfico. Eles vão nos postes, cortam as fiações, até as operadoras pararem de vir aqui fazer manutenção”, contou. Em vários bairros do RJ o tráfico de drogas assumiu o controle da oferta de internet Reprodução/TV Globo Segundo ele, os moradores ficaram sem alternativas: “Hoje a gente é obrigado a assinar uma internet chamada Oliver Net, a famosa internet do tráfico. E a gente não tem saída. Mas já faz mais de um mês que essa internet simplesmente parou de funcionar e a gente não tem para onde recorrer”, disse. Em Benfica, também na Zona Norte, os pacotes variam de R$ 104 a R$ 154, de acordo com a velocidade contratada. Também há cobrança de multa de R$ 20 para pagamentos feitos após o vencimento. Outro morador relata que os custos aumentaram nos últimos anos e que não há possibilidade de escolha. “Você não tem mais o direito de pedir uma internet de uma operadora legalizada. Só a operadora deles. Eles cobram para instalar o roteador, para trocar o equipamento e até para fazer manutenção. Tudo é cobrado”, afirmou. O problema também foi relatado em Itaboraí, na Região Metropolitana. Moradores dos bairros São Joaquim e Três Pontes disseram que são obrigados a contratar o serviço controlado por criminosos. “Eu pagava R$ 70 de internet. Hoje pago R$ 120 por uma internet ruim. E se eu não contratar essa, não posso colocar nenhuma outra”, contou um morador. Operações contra o esquema Nesta terça-feira (20), a Polícia Militar realizou uma operação na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, comunidade dominada pelo Comando Vermelho. Além de combater o tráfico de drogas e o roubo de veículos, a ação teve como objetivo reprimir a exploração irregular do serviço de internet na região. Cinco pessoas foram presas. Com os suspeitos, os policiais apreenderam dois fuzis e drogas. Já na segunda (19), a Polícia Federal realizou uma grande operação contra o esquema de exploração do serviço de internet atribuído ao Comando Vermelho em comunidades como os complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. De acordo com as investigações, os criminosos cortavam cabos de empresas concorrentes, queimavam caixas de distribuição e impediam equipes técnicas de realizar reparos. Com isso, moradores e comerciantes eram obrigados a contratar provedores autorizados pela organização criminosa. Em troca, as empresas pagariam uma taxa mensal para operar nessas áreas. Lucas Santos Nepomuceno, o Lucca, chega à sede da PF Milton Oliveira/GloboNews A operação terminou com 20 presos. Entre eles estão Márcia Gama Nepomuceno, mãe do rapper Oruam, e Lucas Nepomuceno, irmão do artista. Também foi cumprido um mandado de prisão contra Marcinho VP, pai de Oruam e apontado como uma das lideranças da facção, atualmente detido em uma penitenciária federal. Outro alvo preso foi o vereador Fábio Silva (Podemos), detido em Londrina, no Paraná. O que dizem as autoridades Em nota, a Conexis Brasil, entidade que representa as empresas de telecomunicações, afirmou que o bloqueio do acesso de equipes técnicas a determinadas regiões dificulta a manutenção e a instalação de equipamentos. A entidade também alertou para os riscos à segurança dos profissionais e defendeu ações integradas de segurança pública para combater o problema. A Polícia Militar informou que realiza policiamento nas regiões citadas e que prende suspeitos quando flagrados em atividades criminosas. A corporação ressaltou que casos de monopólio ilegal da internet costumam ocorrer de forma velada e dependem de investigação, orientando as vítimas a registrarem ocorrência na delegacia. Já a Polícia Civil afirmou que atua diariamente no combate a organizações criminosas e milícias que tentam impor monopólio na prestação de serviços de internet. Segundo a instituição, as delegacias têm mapeado as estruturas financeiras e operacionais dos grupos, identificado lideranças e combatido a extorsão contra moradores e empresas do setor. A corporação também reforçou a importância de que vítimas formalizem denúncias e registrem ocorrências. 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
Fonte: g1.globo.com